sábado, 21 de maio de 2011

tarde qualquer

Sabe aquelas tardes sem graça? pois é, uma vez no trabalho eu e um grupo já estávamos de saco cheio de olhar o relógio e ver que só havia se passado um minuto,era uma eternidaaade ver as horas passarem naquele domingo a tarde..então, como era de se imaginar começamos a conversar,mas os assuntos raramente agradavam a todos, afinal cada cabeça é um mundo, (principalmente quando se trabalha em um call center). Era mais difícil pra mim na verdade, porque eu particularmente por diversas vezes me sinto o famoso "peixe fora d'agua" no meio daquelas pessoas. Apesar de qualquer barreira pessoal,começamos a conversar e tentamos estabelecer uma certa convergência. Eu não sei quem iniciou o assunto,mas falávamos sobre as coisas que mais odiamos, cada um foi contando uma experiência pessoal de algo que mais detestava na vida, e alguém falou que não suportava seringa,que odiava sentir o toque da agulha,e que o pior de tudo era ver o sangue sendo retirado do seu corpo.
Naquele instante involuntáriamente,reproduzi a cena em minha mente e fui organizando os elementos com clareza,observando os movimentos,tentando chegar mais perto da realidade,procurei o que havia de tão horrível e doloroso,e sinceramente a minha conclusão foi outra..É sem dúvida, UMA DAS CENAS MAIS LINDAS QUE JÁ IMAGINEI!

A agulha encosta na pele cuidadosamente pelo fato de ser um objeto cortante e poder causar um estrago em segundos,o corpo sente o seu toque frio,rígido,e reage com arrepios involuntários mas não se retrái, mesmo entendendo a sua condição de fragilidade diante daquela situação.
É o mais forte abdicando de sua essência,porque mesmo tendo a consciência de que sua finalidade seria agir com brutalidade e frieza,age com cautela e foge completamente à sua natureza agindo com tamanha gentileza..
e o mais fraco que apesar de saber que pode ser ferido a qualquer momento, se entrega de bom grado,como quem não quer nada em troca sabe? apenas se entrega... ficando mais vulnerável do que já é, deixando levar o que considerava precioso, sem questionar, sem pestanejar..

O engraçado é que vivi algo assim.











terça-feira, 6 de julho de 2010

Segredo

A chuva não pára desde ontem
o vento que veio com ela,balançava as folhas pesadas dos coqueiros com tanta facilidade..
e então reparei que eles são meio inclinados,acostumados com a pressão.
olhei para o mar e não encontrei a linha que definia o horizonte,ele se confundia com o céu,
me fez lembrar de uma coisa que aconteceu quando eu era criança

Minha família tem uma casa em Itamaracá,e todas as férias íamos pra lá
um dia,minha prima (com 16 anos na época)conseguiu despistar as neuroses das minhas tias com a seguinte condição:
ela poderia ir à praça(que era o point* de lá) se me levasse junto,
provavelmente minhas tias pensaram que com uma criança por perto,não há porque se preocupar,
afinal,ela não iria muito longe,e eu contaria tudo a elas quando chegássemos em casa,
seria como uma babá eletrônica,monitorando todos os passos,todas as conversas e assim saber o que minha prima queria tanto naquela praça.

Chegamos,mas não ficamos lá,ela me levou por uma rua ao lado,não tinha um pé de gente* e era como estar a 20 passos do mar.
Havia umas pessoas lá na areia ,os amigos dela,
conversavam coisas sem sentido pra mim(que tinha uns 9 anos),bebiam vinho,fumavam,dividiam os cigarros,
corriam para o mar jogando-se naquela água quente,alguns sem roupa,sorriam muito,se abraçavam,uns se beijavam,outros cantavam,um outro tocava violão
parecia festa,uma diferente de qualquer outra que eu já tinha visto,Loucos(foi o que pensei),mas eles eram tão felizes,espontâneos e verdadeiros,que passou pela minha cabeça: acho que não têm família.rsrs..
(no meu mundo família era algo que reprimia,taxava o que você poderia ou não fazer,
com quem você poderia ou não se relacionar,e coisas do tipo..)
mas aqueles jovens esbanjavam liberdade,e então descobri o motivo de minha prima fazer tanta questão e ir à "praça",
ao ponto de aceitar me ter por perto,quando na verdade seria chato com uma criança de 9 anos no pé,
lá ela não era nada além de si mesma,essa era a razão,era ELA,sem máscaras,firulas,repressão,falsos moralismos,
ela só queria respirar,sufocar a alma cansa,e aquele era o cenário perfeito.
Passei um tempo ainda observando tudo aquilo, minha presença era irrelevante,e aquilo me deixou feliz,
era bom saber que apesar de estar lá, eu não estava atrapalhando a curta liberdade da minha prima.

Não demorou muito pra minha atenção mudar de foco,
o mar estava absurdamente lindo,não sei se é porque era noite,
e as ondas realçavam mais quando chegavam à beira,era maravilhoso,o som do vento me dava arrepios,
o frio que fazia era bom,as ondas quebrando com ferocidade nas pedras,
a linha do horizonte lá longe,o brilho das estrelas,a lua,
meu Deus que lua..
Foi como se eu visse o mar pela primeira vez,e ele tivesse se enfeitado todo só pra me mostrar como era em toda sua plenitude.
Eu nunca tinha visto daquele jeito,apesar de ir sempre todas as manhãs nas férias em Itamaracá
foi surpreendente,
passei muito tempo admirando aquele cenário maravilhoso,procurando detalhes pra não perder nem um que tentasse passar despercebido,
e então,não sei se for por olhar muito pra um ponto só,ou algo assim,
em um determinado momento a linha do horizonte não ficou mais visível aos meus olhos,antes era céu e mar,agora era apenas uma capa escura,
e aquilo me desesperou,era como se a escuridão fosse avançar e puxar todos pra ela a qualquer instante.
Senti um frio na espinha,pânico,o escuro me apavorava,
quando percebi já estava chorando,tremendo,com os olhos esbugalhados.

Bem,no fim das contas acabei atrapalhando o momento tão curto de liberdade da minha prima,infelizmente ela teve que sair correndo comigo de lá,
nos sentamos em um banco da praça,(estava lotada) eu me acalmei,ela perguntou o que houve ,eu disse que tive medo do céu escuro,
e que pensei que ele ia nos engolir a qualquer minuto,
ela riu um pouco,percebi que ela tava um pouco mais alegre do que o normal(o vinho e algo mais)
e me disse:só quem pode nos engolir somos nós mesmas,sufocando quem somos de verdade,e quanto ao céu escuro,é só o dia,com as luzes apagadas.

A parte do engolir e sufocar eu lembro que imaginei literalmente a cena,
já a das luzes apagadas,repetia sempre que meu medo de escuro ficava insuportável antes de dormir.
Ela pagou um sorvete pra mim,e eu pus bastante calda(que é a melhor parte),
saindo da sorveteria ela perguntou se eu poderia guardar em segredo tudo que vi e ouvi naquela noite,
eu assenti é claro,
e voltamos pra casa.


Guardei esse segredo tão bem que acabei esquecendo rsrsrs..,e agora aqui estou,após 11 anos escrevendo-o num bloco de notas.
Tudo por causa do jantar à quase beira mar(se não fosse a chuva,tive que ficar na parte interna do restaurante).
A parte do engolir e sufocar às vezes,continuam literais pra mim,a diferença é que aos 9 anos eu imaginei e quase sorri de tão idiota
que a cena parecia ser aos meus olhos de criança,
enquanto hoje,aos quase 20,sinto na pele,e diversas vezes me acho idiota por estar passando por algo assim,mas apesar de tudo,de TUDO..me sinto viva.